Luis Fernando Veríssimo – cronista, romancista, novelista, saxofonista e
tantas outras coisas criativas – é uma leitura obrigatória. Seus
textos, sempre consistentes e leves, fazem bem a alma. Muitas vezes ele
fica distante dos temas mais áridos da política. Mas, quando os aborda,
sempre estimula a reflexão crítica. Reproduzo abaixo a crônica publicada
neste domingo (14) sobre Marina Silva e as eleições. Retorno na
sequência:
*****
Marina
A comparação da Marina com o Jânio e o Collor é gratuita, mas, se ela
for eleita, entrará na lista dos nossos presidentes exóticos - o que não
significa que terá o mesmo destino dos outros.
Mulher, negra, com uma história pessoal de superação da sua origem mais
admirável até do que a do Lula, ela seria, no governo, no mínimo uma
curiosidade internacional, e talvez uma surpresa.
Acho difícil que sobreviva a todas as suas contradições e chegue lá, mas
no Brasil, decididamente, você nunca pode dizer que já viu tudo. Temos
uma certa volúpia pelo excêntrico.
A influência da religião numa hipotética administração Marina é
discutível. Não se imagina que o bispo Malafaia e outros bispos
evangélicos teriam o mesmo poder no governo que tiveram sobre a redação
dos princípios da candidata, obrigada a mudar alguns para não
desagradá-los.
E o que significaria termos um governo evangélico em vez de um governo
católico ou umbandista? Obscurantismo por obscurantismo, daria no mesmo.
Outra excentricidade do momento - sob a rubrica “Só no Brasil” - é o
fato de a candidata mais revolucionária nestas eleições ser ao mesmo
tempo a mais conservadora.
A aprovação quase universal do casamento gay está tornando esta questão
obsoleta, para não dizer aborrecida, mas outras questões em choque com
princípios religiosos, como a da liberação do aborto e a pesquisa com
células-tronco, afetam a vida e a morte de milhões de pessoas.
É impossível saber quantas mulheres já morreram em abortos clandestinos
por culpa direta da proibição do uso de preservativos pelo Vaticano, por
exemplo.
Não faz a menor diferença para mim, para você e para o nosso cotidiano
se Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo porque nem Ele
era de ferro, ou se a humanidade descende de macacos.
Eu mesmo adotei uma crença mista a respeito: acredito que todos os
antepassados da nossa espécie eram filhos de macacos menos os meus, que
foram adotados. Mas a oposição à pesquisa com células-tronco que pode
levar à cura de várias doenças hoje mortais não é brincadeira. É
criminosa.
Acho a Marina uma mulher extraordinária. Mas, como alguém que está na
fila para receber os eventuais benefícios de pesquisas com
células-tronco, voto no meu coração.
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